Oi, gente! Esse fim de semana eu maratonei o novo seriado do Netflix 13 reasons why e depois de assistir todo o seriado cheguei à conclusão de que precisava falar de um aspecto dele para vocês. Quem acompanha os textos aqui sabe que estou nessa vibe de escrever textos sobre feminismo. E mesmo já tendo acabado o mês de março pretendo ainda escrever mais dois textos sobre isso. E um deles é sobre esse seriado.

13 reasons why é um seriado intenso sobre 13 razões que levaram a personagem principal, Hannah, a se suicidar. Isso mesmo, nós começamos o seriado já sabendo que ela está morta. Porém, antes de tirar a própria vida ela gravou 13 fitas cassete falando sobre os motivos que a levaram a tomar tal atitude. Existem muitos pontos de vista possíveis para se interpretar o papel de cada uma das pessoas envolvidas no acontecimento. E por isso o seriado vale tanto a pena, para você acompanhar as formas como esses personagens se relacionam com suas presenças nas fitas.

Eu escolhi falar aqui de um dos aspectos presentes nos porquês da Hannah que é exatamente o machismo. Na minha opinião é justamente esse elemento que destrói o espírito da personagem levando-a a fazer o que fez. O que também dá um apelo muito forte para as espectadoras da série. A direção do seriado vai trabalhando pouco a pouco a cada episódio – até o ápice, negativo claro, no fim do seriado – a sexualização da personagem. Naquelas infelizes brincadeiras do cotidiano adolescente, Hannah tem que enfrentar diversas formas de piadas sexuais sobre o seu corpo e a sua pessoa; sobre a sua conduta. Ela é aquela menina que é pega pelo grupo de garotos da escola para virar “a gostosa”, mas, é claro, não há nenhum sentido de respeito nisso. Ela não é considerada desejada e bonita no sentido que as líderes de torcida podem ser vistas. Ela é a menina que todos os garotos querem pegar; ela é a “garota fácil”.

É dolorido e perturbador ver essa construção, por ser extremamente real. Por ser tão fácil você enxergar a realidade naquelas atitudes que, principalmente, mas não só, os garotos têm com a Hannah. Porque quando se quer ofender uma mulher (ou duas, ou três, ou todas) o meio mais rápido parece ser o apelo sexual. De qualquer intensidade: tanto dizendo que uma garota é sexualmente desejável quanto o contrário. Nós mulheres não queremos ouvir nenhuma das duas coisas na boca de um grupo de garotos idiotas que acham que brincadeiras não tem limites.

Tem um certo momento da história que o protagonista, Clay, um garoto tímido e bonzinho, não consegue entender por que Hannah ficou tão furiosa por uma dessas brincadeiras. Clay é um ótimo garoto, é amável e sempre tão delicado com ela… Mas Clay é um garoto e não consegue entender a intensidade dessa sensação. A intensidade da sensação de ser observada. De ser devorada por olhares estranhos sobre o seu corpo. Mas se você for uma garota você vai saber; pois certamente já passou por isso.

A sexualização acompanha a nós, mulheres, desde que as primeiras curvas começam a se pronunciar em nossos corpos. É claro que essa realidade vai atingir cada uma de nós de maneiras diferentes. Para algumas de modo mais intenso do que para outras. E o fato do personagem Clay não entender essa realidade não faz dele uma má pessoa, só mostra como homens e mulheres são criados para concepções tão diversas de seu espaço no mundo.

Não tenho dúvida nenhuma de que o que matou Hannah foi o machismo. O machismo fez dela um bode expiatório na escola. Depois fez com que ela não acreditasse no potencial de si mesma em um relacionamento. Foi o machismo que a fez pensar que “ela não merecia” alguém bom, um cara legal. O machismo fez com que ela acreditasse que havia se tornado uma vagabunda, mesmo sem ter feito nada para isso. E por fim quando ela pediu para a representação da sociedade (não vou dizer em que sentido para não estragar a história, mas se você já viu estou falando da razão 13, rs) apoiá-la, dizer que nada daquilo era culpa dela, o que ela recebeu foi exatamente o contrário. “Feche os olhos”, a sociedade disse para Hannah, “e siga em frente como se nada tivesse acontecido”.

É triste, muito triste ver que ninguém foi capaz de dizer que ela não tinha culpa; que ela não era exagerada. Todos fizeram o inverso. Disseram para ela não fazer drama. Pois é isso que mulher faz: “mulher faz drama” quando não aceita a visão sexualizada que lançam sobre ela. Mulher faz drama quando tem uma reclamação a fazer sobre a maneira como é tratada. E esse é mais um dos motivos pelo qual temos que lutar pelo direito de sermos ouvidas com igualdade. O direito de que nossas necessidades sejam respeitadas sem ser colocado em questionamento a validade delas.

#NãoSejaUmMotivo que fez Hannah tirar a própria vida. Lute para que pelo menos um motivo deixe de existir. Como eu disse, falei apenas de um dos aspectos da série, mas existem outros que levam a personagem à depressão. Não posso deixar de observar que depressão é uma doença muito séria que a nossa sociedade aprendeu a desvalorizar. Acho que a própria forma como a interação social acontece hoje em dia contribui com a depressão. Uma palavra sua, um sorriso sincero, para um amigo pode valer muito mais do que você imagina.

Sou historiadora e literata pela Unicamp. Criei esse blog pela necessidade de falar sobre negritude e feminismo duas coisas que para mim significam identidade. Mas como todas pessoas são diversas, você pode encontrar outros textos aqui sobre literatura, cinema, seriados! ;)

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