Quando eu era adolescente eu lembro de uma discussão na sala de aula sobre o crescimento, nos censos do IBGE, de pessoas autodeclaradas como negras. O princípio era simples nesses cálculos: ninguém dizia que um indivíduo era negro, indígena ou amarelo para a contabilização nacional, ela se autodeclarava com alguma cor e através dessas declarações eram criados levantamentos e documentos a respeito. Assim, a população negra parecia estar aumentando. Naquele tempo não se discutia profundamente raça nas salas de aula – não na minha pelo menos – mas se passava por ela dessa forma desatenta que apontava os números do censo e pulava para fatores históricos nos quais se falava da escravidão e de como o país foi formado por um grande número de africanos vindos de alguns pontos da África. E claro não se deixava de assinalar que a população negra era marginalizada no país. Essas questões, naturalmente, são importantes para se discutir com adolescentes, mas vejam como elas afastam da nossa realidade diária o tema da negritude. Em uma escola particular como a minha, era um assunto em terceira pessoa, digamos, externo ao grupo que falava sobre ele. Mas, a parte esse lado educacional, a questão para mim continuava: o que fazia, afinal, negros não se declararem como negros?

Fiquei muito tempo tentando entender como uma pessoa negra podia se olhar no espelho e não se ver negra. O que havia por trás daquela afirmação de que o IBGE não recebia o número real de negros que existiam no Brasil? Porque os negros queriam se esconder, queriam mentir sobre o que eram? Não estava na pele? Algo tão visual como a cor de cada um? Era algo que povoava o meu pensamento e eu nem mesmo sabia por quê. Então, a pergunta certa talvez fosse: porque eu não consegui esquecer essa questão entre tantas outras que nos são colocadas na sala de aula?

Levou ainda muito tempo para eu entender que aquela pesquisa do IBGE não estava falando com “eles”, negros de pele escura, que não era sobre um grupo externo à minha realidade. Inacreditavelmente, ela estava falando comigo. Foi algo como: “Ei, amiga, quem está se olhando no espelho e não consegue se ver é você”! Não sei se você, leitor, consegue entender o impacto disso na vida de uma pessoa negra. É como o clímax de um livro de suspense; aquele momento em que você começa a entender as coisas. Como um filme em preto e branco que vai ficando colorido e SÓ então você passa a entender o porquê de certas cenas que vieram antes.

Quando eu paro pra pensar na quantia de pessoas negras no Brasil que ainda precisam se descobri negras eu fico estarrecida. Parece lógico para mim hoje – talvez para você aí do outro lado da tela ainda não seja – mas não são negros que pele escura que não sabem que são negros. São os negros de pele clara.

São os negros de pele clara que não sabem afirmar com autoconhecimento a cor, ou a raça, quando são questionados formal ou informalmente sobre isso. Somos ensinados, negros e brancos, que não é ideal chamar alguém de negro no Brasil. A regra é sempre evitar o termo supostamente extremista ou radical: moreno é a nomenclatura preferida. Usa-se mulato, no máximo, se for para se referir a uma pele um pouco mais escura para a genérica descrição de morenos. De fato, já vi várias vezes pessoas preferirem o termo “escurinha(o)” (que sempre me soa muito mais preconceituoso) do que o simples e claro: negro.

É um exercício de reflexão realmente profundo que precisamos fazer, pessoas negras e brancas, para conseguir reconstruir a ideia de identidade que temos formada no Brasil. Identidade é um autoconhecimento que perpassa várias categorias: nacional, regional, religiosa, étnica entre muitas outras que incluem a cor de cada um. Eu sou brasileira e paulista, o que automaticamente significa que sou do interior. Ser do estado de São Paulo e do interior significam na minha construção como pessoa, quando estou na cidade de São Paulo. Ser paulista significa quando eu estou com um grupo onde haja pessoas da Bahia, do Ceará ou do Rio de Janeiro. Facilmente vira tópico de conversas e de risadas. Falamos de diferenças e igualdades que nos constituem como partes integrantes de um mesmo país.

O ser humano constrói imagens e conceitos sobre outras pessoas através de grupos. É algo natural, chama-se generalização, e é importante para a forma como o conhecimento se organiza na nossa mente. É claro que, em alguns momentos, pode se tornar problemático, afinal estamos todos inseridos em alguma cultura que dirá se é melhor ou pior se referir a determinado ponto de algum assunto e nisso entra mais uma vez a cor de cada um. O século XX nasceu e se frutificou em termos raciais e nós ainda somos resultado do século passado: no medo de se referir a cor de pessoas e na lógica de preferir o branco a todas as outras. Todos sabemos aonde nasce esse problema com a cor. Não chamar uma pessoa de negra, com naturalidade, não fará o racismo deixar de existir.

O poder da História e da Cultura sob os integrantes de uma Nação é surpreendente. Não podemos nos desligar da cultura, ela nunca deixará de fazer parte de nós, mas podemos, felizmente, transformá-la. Dia a dia, ano a ano, até que se torne outra coisa. Estamos invariavelmente presos na História do nosso povo, o povo brasileiro, com uma maior ou menor elasticidade graças ao conhecimento que somos capazes de adquirir e ao contato com outros povos que muitas vezes nos fazem ver a nossa realidade de uma maneira diferente.

Se dizer negro é um ato político e é impossível abordar esse tema em um único post. Sim, sou filha da mistura que existiu nesse país desde a sua criação. Já vi muitos outros mestiços criticando outros negros de pele clara, como eu, que se colocam como negros. A questão é: você realmente já parou para pensar sobre isso ou só está sendo parte da Cultura do seu país, de modo pouco flexível para entender o que significa a propagação das categorias “pardo” ou “moreno”?

Em vez disso te convido para conversar sobre isso. A minha intenção é fazer uma série de posts sobre negritude e o papel da mestiçagem nela. Não quero falar (apenas) que a mestiçagem no Brasil começou com o abuso de homens brancos com as primeiras escravas africanas ou indígenas que viviam na colônia, isso é mais uma vez afastar da nossa realidade, do hoje. Existe muito a ser dito para quem quer parar e escutar. E, então, você quer conversar?

 

 

Sou historiadora e literata pela Unicamp. Criei esse blog pela necessidade de falar sobre negritude e feminismo duas coisas que para mim significam identidade. Mas como todas pessoas são diversas, você pode encontrar outros textos aqui sobre literatura, cinema, seriados! ;)

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