Ser ou não ser negro é a raiz de toda essa questão. Tudo isso por conta do nosso famoso e muito acalentado processo de miscigenação. Veja bem, eu sou de família mestiça e todo meu pensamento se pauta nisso. Existe uma dose de farpas nessa minha última colocação, contudo não é voltada para nós que somos frutos da mistura – de pais e mães, brancos e negros, que se casaram e tiveram filhos – mas sim para as teorias raciais e históricas que existem por trás da forma como compreendemos o significado da miscigenação no Brasil.

Em fins do século XIX e começo do século XX a maior preocupação do pensamento social no Brasil era justificar e tornar cientificamente positivo o processo de miscigenação do país. Existiam correntes teóricas nos EUA e na Europa que viam a mestiçagem como uma forma de construir povos e “raças” mais fracas e degeneradas; os filhos da mestiçagem – para essas teorias – seriam menos competentes intelectualmente, menos vigorosos fisicamente, basicamente éramos menos tudo. Só que para a intelectualidade brasileira esse pensamento era um problema, pois eles começavam a república com o maior número de negros e mestiços do ocidente. O Brasil era um país negro fora da África e era preciso lidar com isso.

A intelectualidade brasileira começou a construir seu próprio discurso. Apropriando-se do que era dito nos grandes centros como Londres e Paris, a elite brasileira passou a transformar o discurso da mestiçagem negativa para uma mestiçagem positiva. Pode parecer bonito, não? Parece bem legal, visto assim na superfície. E foi exatamente assim que o discurso da mestiçagem foi visto por muito tempo; como uma camada bonita de aceitação das diferenças. Só que se você tira esse revestimento e vai mais fundo nas teorias, você descobre por exemplo que a base da teoria da mestiçagem é a teoria do embranquecimento. O discurso era que em três ou quatro gerações a mistura entre negros e brancos eliminaria a raça negra, já que de acordo com os teóricos da época a raça branca era mais forte e logo predominante.

Vamos dar um foco na afirmação anterior para pensar. Se eu te perguntar o que é mais fácil acontecer quando nasce o filho de uma pessoa negra com uma pessoa branca você provavelmente vai concordar comigo que é mais fácil nascer uma criança com um tom de pele que não é branco. Certo? Se você é contra o posicionamento atual da negritude e não quer chamar essa criança de negra, tenho certeza que dirá que a criança é mestiça – pois ela é a mistura dos pais, do branco com o negro, e de repente tem a pele um pouco mais clara do que o progenitor. É a famosa criança mestiça. Dizer que a criança é mestiça é uma forma que temos de afirmar que ela não é só filha de negros – que existe ali o seu percentual branco participante (que não é óbvio dependendo da situação).

Dizer que a criança é mestiça é exatamente o que a teoria do embranquecimento esperava que você fizesse. Só que eu te pergunto: era essa criança mestiça que aqueles teóricos estavam defendendo? Era essa criança marrom, castanha, caramelo, ou seja, qual for a tonalidade de cor que ela pudesse ter, o futuro do país?! Não! Nós mestiços seríamos apenas o trampolim. A única vantagem que eu ou você apresentaríamos para esses teóricos era a possibilidade de um dia termos um filho branco. Esse era o ideal da mestiçagem. A ideia de que um dia, quando mais pessoas mestiças casassem com pessoas brancas, chegaria o momento que eles finalmente teriam crianças brancas. E essa criança branca casando com outra pessoa branca não correria o risco de ter um filho “mestiço”, um filho com qualquer porcentagem de cor na sua pele (de acordo com eles e não com a genética). Aí sim você teria alçado a “mestiçagem” ideal – basicamente a branquitude.

Esse é apenas um dos motivos por que não vejo razão nenhuma para afirmar o que a teoria racista da mestiçagem desejava. Insistir que eu sou mestiça, como se isso precisasse ser defendido, é dar aos brancos que tinham horror de pensar o Brasil como um país com tantos negros exatamente o que eles queriam. É dar a eles a possibilidade da minha própria eliminação, já que não era o meu nascimento que eles esperavam.

Se isso fosse um filme de ficção científica eu seria presa com todas as outras negras de pele clara para produzir criancinhas brancas para a formação de um país desejado. As pessoas brancas estariam livres para viver “esse país”, mas não eu. Então, me desculpe, mas não vou dar força aos meus algozes.

Sou historiadora e literata pela Unicamp. Criei esse blog pela necessidade de falar sobre negritude e feminismo duas coisas que para mim significam identidade. Mas como todas pessoas são diversas, você pode encontrar outros textos aqui sobre literatura, cinema, seriados! ;)

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