Entrando no clima de ano novo, esses dias me peguei lembrando de um seriado antigo, que passou na Globo nessa época – quando eu ainda assistia tevê, o que me garante que deve fazer uns bons anos. Tenho na cabeça uma situação específica, na qual os funcionários da empresa em que ocorria a história ficam bêbados, durante a confraternização de fim de ano, e acabam enviando fotos antigas para seus clientes com os dizeres: “Veja como você melhorou, feliz ano novo!” e talvez mais alguma coisa que eu não saberia dizer agora. No dia seguinte, lúcidos novamente, os autores da ideia morrem de medo de perderem todos os clientes e o emprego pelo que fizeram. Mas não é isso que acontece. As pessoas se divertem ao receberem suas fotos antigas. Cabelo anos 80. Calças boca de sino. Todos riem ao serem lembrados dos costumes que já tiveram, no quanto suas vidas mudaram e eles mesmos se transformaram – é claro que levando em conta o contexto de que eram todos clientes da empresa x e não desempregados infelizes com o estado atual de suas vidas.

Para a maioria das pessoas, afinal, ano novo é isso. É o reset de um tempo imperfeito, com a eterna promessa de tempos melhores. É a boa e velha superstição de que a virada desse dia específico, ao contrário dos outros, trará com ela a saúde e a riqueza, os amigos e os amores. Por via das dúvidas garante-se a lingerie da cor determinada para o que se deseja. Não vou mentir, eu também escolho a minha. Aposto sempre numa peça preta para evitar os maus fluídos; cada um confie na figuinha que lhe convém. Mas tem gente que exagera para garantir a boa sorte. Eu sabia que chupar uva na passagem é pedido de riqueza, só não sabia que tinha que ser num lugar mais alto que o chão. Alguns talvez achem uma cadeira o suficiente outros, no entanto, interpretam de maneira radical e já apostam no telhado! Se estiver na praia tem que pular as sete ondas e fugir da oitava sem dar as costas para o mar. Ah, quanta gente não começa o ano com um bom e velho tombo na água salgada. É pra lavar a alma toda.

Lembro que fazer várias simpatiazinhas quando era adolescente. Acho divertido quem faz, mas não sou dada mais a esses misticismos. Por outro lado, ainda confio na ideia da renovação. Toda empresa precisa fazer o balanço, checar os ganhos e as perdas que obtiveram durante o ano e com nós, indivíduos, não é muito diferente. 2016 passou com uma força que parece ter tirado muita gente do chão. A intensidade de momentos assim, no entanto, convida a refletir e ponderar sobre o que se alcançou e o que tornou difícil que outras metas também fossem atingidas. É importante parar para analisar o que está dando certo. Só não se deve esquecer que as promessas não se concretizam sozinhas.

É bom observar que o riso que aqueles personagens deram no seriado que citei é movido pela ação do tempo longo, que esclarece e especifica situações, algo que o tempo curto ainda não deu conta de nos mostrar. É muito mais fácil conseguir ver o quanto a vida mudou em 5, 8 ou 10 anos do que no desenrolar de apenas um. O tempo longo apazigua dores, esclarece situações, afirma escolhas, da força para o que já foi determinado. O revés é que para as transformações o tempo curto, dos planos incompletos, dos caminhos imprecisos, das metas por realizar é aquele que se modifica de maneira mais fácil por não ser ainda tão demarcado em nossas vidas. Por isso vale investir no reset de cada ano. Afinal, para se rir amanhã é preciso fazer do hoje a rota de passagem para onde se quer chegar.

Imagem: Autor desconhecido, se souber a origem favor informar para os devidos créditos.
Sou historiadora e literata pela Unicamp. Criei esse blog pela necessidade de falar sobre negritude e feminismo duas coisas que para mim significam identidade. Mas como todas pessoas são diversas, você pode encontrar outros textos aqui sobre literatura, cinema, seriados! ;)

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