Ano passado, quando comecei a publicar textos em um blog tentei fugir dos temas sobre a negritude brasileira. Apenas tangenciei o assunto falando de alguns filmes que assisti, mas sempre com certo receio de me focar demasiadamente e acabar sendo vinculada como escritora ou cronista “de um grupo específico”. Tive medo de falar exclusivamente sobre negritude, pois infelizmente no Brasil esse é um daqueles temas que faz as pessoas olharem com receio para você, como alguém que está querendo “causar discussões”. Parece que por aqui temos dificuldade com a criação de diálogos para o aprofundamento de assuntos importantes para a nossa sociedade (Afinal, racismo está longe de ser um assunto só para negros lerem). Em grande parte das vezes as pessoas se prendem em suas próprias razões, juízos e certezas, sendo incapaz de ouvir e tentar compreender a realidade do outro.

O medo que eu senti de me posicionar criticamente sobre a minha negritude e sobre a discussão social da negritude me parece sintomático de uma questão mais ampla, não referente apenas a mim, mas ao espaço que temos para a criação de subjetividades negras no Brasil. Se dizer negro no Brasil é visto como algo negativo, que não deve ser apontado e sublinhado na vida de ninguém. É indelicado constatar a cor de uma pessoa, o que nos faz utilizar preferencialmente a referência “moreno” ou “bem moreno”. Até mesmo os defensores do termo pardo devem saber que ele é dificilmente usado para se referir a alguém fora dos questionários sociais. Evitamos ao máximo esclarecer a cor de pessoas negras.

O racismo, no entanto, se faz presente de diversas formas e quando ele não consegue calar a sua consciência de cor, ele vai querer te calar de outros modos. É o que acontece com todas as pessoas que se propõem a colocar o dedo em feridas sociais para deslegitimá-las. Sempre haverá alguém para, de alguma forma, tentar ridicularizar o que você estiver fazendo. Taís Araújo é um bom exemplo disso. Sempre que a atriz se posiciona sobre o racismo e a marginalização do negro no Brasil surgem vozes que tentam invalidar o seu discurso ou distorcê-lo para diminuir sua importância.

Eu tinha tudo isso em mente, mas, apesar de saber que eram formas de silenciamento, eu me deixava silenciar, afinal somos humanos e é muito difícil não levar em conta nossa vida em sociedade. E não demorou mais de uma semana para surgir no meio das minhas publicações quem quisesse diminuir a minha fala e a minha competência de maneira agressiva e incoerente. Afinal, qual a melhor forma de atacar um artista, que não falando mal de sua arte? No caso de um texto escrito, desdenhar da habilidade da escrita parece uma forma bem efetiva de “colocar um preto no seu devido lugar”. Para aqueles que não sabem não precisa levantar a voz contra a cor de uma pessoa negra para ela saber que você está sendo racista com ela; você pode ser racista sem usar a palavra “negro” nem uma vez em sua frase.

Agora eu me pergunto, se eu não fosse formada pela Unicamp; se eu já não tivesse um mestrado e um doutorado em andamento em Letras; se eu não soubesse muito bem o espaço que ocupo na construção do conhecimento eu certamente teria muito mais medo de me posicionar. Por mais que a vida tivesse me dado todos os subsídios para falar com propriedade sobre determinado assunto, a falta de legitimidade que uma titularidade dá me calaria.

A escritora americana Alice Walker entra com maestria nesse assunto de “quem vai me ouvir” e “para quem eu posso dizer algo” quando a pessoa é negra e iletrada. Ela conta a história de uma negra que nunca teve a oportunidade de estudar, mas tinha uma necessidade enorme de colocar suas reflexões em um papel, no livro A cor púrpura. Entre muitas coisas ela mostra que não importa a sua habilidade linguística, quando você tem o desejo de externalizar um sentimento, uma vivência, uma realidade. O que importa é a sua mensagem.

Os processos de silenciamento são múltiplos. Por que escutamos a experiência de mães sobre maternidade, sem as julgar, sem perguntar qual o grau de instrução delas e não o fazemos com pessoas negras? A grande maioria das pessoas negras não alcançam educação superior e dizer que uma pessoa negra não pode transmitir uma mensagem pois ela não fala tão bem ou não escreve tão bem é mais uma forma típica do racismo brasileiro que separa pela cor mas tenta justificar pelo espaço social que a pessoa ocupa.

Eu fui a primeira pessoa da minha família a fazer uma faculdade; hoje em dia esse discurso é muito comum entre as pessoas negras universitárias. Serem as primeiras a atingirem um diferencial entre os seus. Mas mesmo nós, para falarmos sobre a situação social da negritude, muitas vezes olhamos para esses outros ao nosso redor que não conseguiram chegar aonde chegamos. Sabemos que é muito muito difícil. Sabemos que nem todos da nossa própria família terão as mesmas oportunidades que poucos de nós tiveram. Então, sugiro que se fosse aí quer entender o Brasil, deixe a arrogância de lado e preste atenção no que os menos instruídos tem a dizer. Nós aprendemos muito com as dificuldades deles. Vocês também podem aprender.

 

Créditos da imagem: Thinkstock
Sou historiadora e literata pela Unicamp. Criei esse blog pela necessidade de falar sobre negritude e feminismo duas coisas que para mim significam identidade. Mas como todas pessoas são diversas, você pode encontrar outros textos aqui sobre literatura, cinema, seriados! ;)

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