Para tudo na vida existe um time perfeito. Sabe aquele filme que te pega do começo ao fim e o seu pensamento é que ele foi feito para você? Normalmente isso ocorre porque naquele momento da sua vida aquela história está te trazendo um significado especial. Provavelmente a sua reação não seria a mesma se assistisse ao mesmo filme cinco anos antes ou dez depois. Tudo é sentido mais intensamente quando tem algo na temática que te toque mais de perto.

E foi sabendo disso que assisti ao revival do seriado Gilmore Girls. Enrolei, revi outras temporadas com medo de finalizar o que já havia sido finalizado há 10 anos. É uma nostalgia estranha que só quem assistiu à série naquela época é capaz de entender. Rory Gilmore era a adolescente que eu acompanhava quando eu mesma tinha 16 anos. A menina certinha, apaixonada por livros, que queria estudar na melhor universidade do seu país e que acreditava que um diploma garantiria invariavelmente o seu futuro.

Quando estamos na escola e depois na faculdade a vida parece fluir por um caminho determinado. O que pode nos impedir de alcançar o sucesso se somos pessoas esforçadas e fizemos tudo conforme a música (escola, faculdade, boas notas etc.)? Afinal, eu pensava, o fracasso não é para os dedicados; se você faz a sua parte o mundo te devolve na mesma medida. Aos 20 anos eu realmente acreditava que era impossível chegar perto dos 30 sem ter a vida resolvida. Porque isso simplesmente não acontecia com garotas como eu ou Rory Gilmore. Pessoas que passaram nas melhores universidades do país, que puderam escolher em qual dessas universidades estudar, que tiveram as melhores notas e que tinham sim muito conhecimento em suas áreas. Como ousaria o futuro ser menos do que brilhante?

Por mais que no final do seriado original nós não soubéssemos qual seria o futuro da Rory, ela tinha apenas 22 anos, estava começando a construir a pessoa que poderia ser. Mas então o tempo passa, você deixa os vinte e poucos e se aproxima dos vinte e muitos. O tempo agora te diz que apesar de você ter feito muito, apesar de ter corrido atrás de muitas coisas e conquistado outras tantas, você está longe de ser o que imaginou que seria nessa idade. De repente você nota, até mesmo, que voltou para a casa dos seus pais, por mais que isso nunca tenha estado nos seus planos. Afinal, a vida não corre só de acordo com os planos – e aos 20 e muitos isso já está bem claro.

O revival de Gilmore Girls foi uma triste lembrança de que às vezes você tem que aceitar que a playlist da sua vida mudou, ainda que quisesse continuar no antigo álbum. O destino incerto da Rory é como todos os destinos: segue caminhos inesperados e não pergunta se isso te satisfaz.

Para a maioria de nós não é fácil. São uns poucos que conseguem fugir da curva de dificuldades e conquistar o espaço desejado num curto intervalo de tempo. Não tiro o mérito de ninguém, mas uma coisa que se aprende com os anos é que nem tudo é esforço – existe um pouco de sorte na vida. E o problema é exatamente a gente não saber quando poderemos contar com ela. Dúvidas, sempre teremos muitas. Elas não desaparecem com o tempo, só se modificam e você passa a refletir mais para tentar resolvê-las.

Sou de uma geração que foi criada para acreditar que o esforço é a garantia do sucesso. E ainda acredito na importância dele. Só que ao contrário do que parecia, o esforço não trará o sucesso imediatamente após a sua formatura e talvez nem seja da forma como imaginava. A vida é um combinado de altos e baixos. Fazer uma boa faculdade com certeza colabora e muito para o futuro, mas ela não é tudo. No meio do caminho – nesse espaço chamado vida – podem acontecer tantas coisas que é impossível acreditar que algo que aconteceu lá no comecinho – a faculdade – fosse a única resposta para todo o resto. Acho que precisamos aceitar é que a vida não se soluciona antes dos 30. E que ela não é escalada rumo a ascensão.

O final de Gilmore Girls me abalou por ser tão “vida”. E ela, a vida, não está aí para ser revolvida, está aí para ser vivida.

Sou historiadora e literata pela Unicamp. Criei esse blog pela necessidade de falar sobre negritude e feminismo duas coisas que para mim significam identidade. Mas como todas pessoas são diversas, você pode encontrar outros textos aqui sobre literatura, cinema, seriados! ;)

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