Qual o limite do seu esforço? Quanta pressão você aguentaria para se superar em sua função dentro de uma empresa, mesmo sabendo que mais de 95% das pessoas que estão ao seu redor não esperam nada de você? Noites fora de casa, distante dos filhos; descaso do chefe; baixos salários e toda uma sociedade organizada para que você não prospere acima de um limite aceitável por ela. Quando o mundo ao seu redor está majoritariamente contra você, o que você faz?

Luta redobradamente. Conscientiza-se de que o olhar daquele que quer te rebaixar não te caracteriza realmente. Afinal, nenhuma aparência física está relacionada com o conhecimento que a pessoa possa ter. Claro, sabemos que as nuances do preconceito vão muito mais longe do que o simples esforço de seres humanos individuais, mas isso não diminui a beleza de histórias de luta e conquista daqueles que conseguem se destacar nesse meio.

É difícil assistir ao filme Estrelas além do tempo e não se sentir energizado pela garra e determinação das três mulheres negras que fizeram a diferença dentro da NASA durante a corrida espacial dos anos de 1960. De um lado a Rússia com um alto desenvolvimento tecnológico na hora de se lançar ao espaço; de outro um Estados Unidos inconformado pela perspectiva de “perder” o espaço para a concorrente. Dá para perceber que nesse jogo de poderes internacionais era preciso que os líderes escolhessem qual a medida de suas intransigências. Poderia não ser o esperado, mas Katherine Jonhson, Dorothy Voughn e Mary Jackson fariam a diferença dentro daquele instituto impondo suas presenças para homens e mulheres brancos; por mais que eles preferissem que mulheres negras como elas continuassem invisíveis ali.

Gostei muito de uma frase que líder da NASA, Al Harrison, diz para Paul, o engenheiro chefe do departamento de lançamentos espaciais: “Você precisa saber encontrar o gênio no meio dos gênios…”. Trabalhando na NASA todos ali tinham que ter algo de brilhante, mas mesmo entre os que brilham existe o excepcional. Por mais que obviamente nenhum deles quisesse, era uma mulher negra (Katherine Jonhson) a pessoa capaz de fazer a diferença entre eles.

Coincidentemente essa semana também assisti ao filme O homem que viu o infinito, o qual conta a história de Ramanujan, um indiano com conhecimentos excepcionais em matemática. Ramanujan não teve formação acadêmica, algo que não o impediu de desenvolver diversos estudos. Em plena 1ª guerra, ele se muda para Inglaterra a fim de estudar e publicar suas descobertas em Cambridge, mas, é claro, um homem negro como ele não seria aceito como igual pelos senhores ingleses daquela universidade sem de fato demonstrar sua genialidade.

Ao negro não basta(va) ser muito bom ou mesmo excelente. Ele precisaria estar acima de toda e qualquer expectativa para que europeus ou americanos brancos lhe olhassem com um respeito surpreendido. A certo momento, durante o filme da NASA, Dorothy Voughn, que se tornaria a primeira supervisora negra de uma espécie de avô do computador, tem um diálogo, com sua antiga supervisora, ainda hoje necessário.

A mulher, que nunca teve uma relação muito afetuosa com Dorothy, afirma que não tem nada contra eles (os negros americanos). Ao que Dorothy responde: “Eu sei… Sei que você quer acreditar nisso”.

Todos querem, afinal, acreditar que não são racistas. De certa forma, principalmente hoje em dia, existe um medo generalizado de ser acusado de racismo. As pessoas temem a acusação mais do que se esforçam para realmente não serem acusados, e se preocupam mais em autoafirmar suas certezas de idoneidade do que em entender como se estrutura o preconceito.

Estrelas além do tempo não entra na discussão dos direitos civis dos negros que estava sendo debatido naquele mesmo período. Nem por isso o assunto deixou de estar presente. O homem que viu o infinito também toca na ferida racial que atinge todos aqueles que não sejam brancos. Histórias assim, inspiradas em fatos reais, são realmente essenciais para a reflexão humana. Nenhum dos dois são filmes brasileiros, mas ambos dizem muito para o povo brasileiro.

Quantos outros afrodescendentes ou indianos não perderam a oportunidade de mostrarem suas habilidades por um preconceito racial que previamente dizia que eles não seriam capazes? De certa forma o limite do esforço está condicionado a cor de cada um. Se a pessoa é negra ela terá que lutar mais, lutar muito, não porque as habilidades individuais de fato se reflitam em termos de raça, mas porque é preciso romper um domínio – o da intelectualidade que é majoritariamente branca. Romper esse domínio é difícil, às vezes beira ao impossível, por isso seus pioneiros merecem a homenagem. Sempre existem os primeiros a expandirem limites, superarem desafios. E essas são histórias de alguns deles.

 

Sou historiadora e literata pela Unicamp. Criei esse blog pela necessidade de falar sobre negritude e feminismo duas coisas que para mim significam identidade. Mas como todas pessoas são diversas, você pode encontrar outros textos aqui sobre literatura, cinema, seriados! ;)

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