Nem todo afrodescendente é negro. Começo o texto com essa afirmação que hoje certamente tem pesos diversos, dependendo de quem lê e de como a pessoa a interpreta. Graças à internet, ao YouTube e a blogs independentes a discussão racial no Brasil tem alcançado um novo patamar e vem, felizmente, atingindo mais pessoas. Essa ampla divulgação de ideias e realidades pessoais tem ajudado na afirmação de muitos negros e negras do país – das mais diversas tonalidades de pele -, mas também tem criado disputas acirradas entre pessoas afrodescendentes.

Acho que a primeira coisa que preciso dizer é que pessoas negras, de pele clara, não estão contra pessoas negras de pele escura. Todo movimento para ser forte precisa ser unido. A percepção das pessoas ditas “pardas” como negras é apenas mais um passo em busca da igualdade e do reconhecimento da verdadeira diversidade que tanto buscamos. O “Brasil país de mestiços”, “país da igualdade racial”, mas que sempre teve medo de falar de raça, não é esse país. É preciso expurgar o medo de cor e raça que temos por aqui para que a discussão realmente possa avançar. A nossa compreensão de raça é impregnada pela ideia da mestiçagem, como se dizer que uma pessoa é mestiça invalidasse a discussão racial.

Afinal, o que é ser negro? Por que temos dificuldade em aceitar a negritude em toda sua diversidade? No Brasil ser negro está diretamente relacionado com a afrodescendência, com a ancestralidade africana e inevitavelmente escrava, mas é claro, não é só isso. É claro que podemos abrir um parêntese enorme, afinal, africanos são negros e não são herdeiros da nossa escravidão. Podemos ainda pensar em outras etnias pelo mundo, que são de pessoas com pele escura, e nos perguntarmos como funciona o pensamento em relação a cor para além da África. Mas, dessa vez vamos ficar aqui, entre brasileiros, e a nossa história, ok?

Costumo pensar que se eu e uma mulher negra de pele escura fossemos transportadas para o século XIX, nós duas – ainda que com tons de pele diferentes – estaríamos igualmente ferradas sem uma carta de alforria. Ainda que em outros tempos eu não tivesse uma consciência racial muito forte, eu sempre soube os riscos que correria em outros momentos da história do Brasil. Filmes de história nunca me contemplaram, pois eu sabia que em outras épocas eu seria a escrava ou a empregada, nunca a sinhazinha.

Cor clara nesse anúncio do século XIX com certeza não significa “branco”, apenas um negro de pele não escura.

Se eu vivesse a narrativa construída por algumas escritoras e fosse parar em outra época (como em Outlander), antes de acreditar que um cavalheiro branco iria me levar para casa e me proteger eu ficaria com muito muito medo. Eu ficaria com medo exatamente por conta da minha cor. Mulheres negras e mestiças, como eu, não teriam seu status de escrava questionado só por ter a pele um pouco mais clara do que de outras mulheres igualmente escravas. A forma como eu posso me ver em relação ao passar do tempo está diretamente relacionada com a escravidão e com a minha cor.

Já a minha irmã, se ela sofresse o mesmo processo de abdução temporal e fosse parar em 1870, talvez ela impressionasse com o seu conhecimento. Uma mulher branca e letrada. Talvez ela pudesse dizer que fugiu de um pai violento (ou talvez nem precisasse dizer nada) e conseguisse a condolência de alguma família que a contrataria como professora para seus filhos. Talvez ela realmente encontrasse um bom rapaz branco que se apaixonasse por ela e a faria viver um conto de fadas. A única coisa que sei, com certeza, é que ela não pararia numa senzala (ou nas galés da polícia) antes que pudesse se explicar. Isso porque a minha irmã é branca, sem sombra de dúvidas: é branca, tem os cabelos lisos e todos os traços de uma pessoa branca.

Isso é mestiçagem. O fato de eu poder ter uma irmã branca e ainda assim ser negra é mestiçagem. Mestiçagem é uma origem – que em alguns casos, como no dela, pode ser escondida – e não uma cor. Uma pessoa é mais ou menos mestiça de acordo com a maior ou menor possibilidade de ter filhos com os traços característicos de outra raça. Neste sentido, sim, eu concordo com a afirmação de que nem todo afrodescendente é negro. A minha irmã tem avó negra, tem bisavó negra, tem tataravô negro e ainda assim é branca. O processo de miscigenação da minha família fez com que algumas pessoas nascessem brancas e outras negras.

As pessoas se surpreendem quando minha irmã diz que tem avó negra.

Ninguém se surpreende quando eu digo isso.

Na verdade, as pessoas se surpreendem com a miscigenação. Ficam abismadas com a possibilidade de eu ter uma irmã tão branca. Ao contrário do que vendemos internacionalmente o Brasil não está nada acostumado com a miscigenação.

Ele se choca com famílias mestiças sempre que se depara com elas.

Ele arregala os olhos quando uma criança negra diz que a mãe dela é branca.

Ele deixa bem claro que negro misturado com branco confunde os seus espaços. E o obriga a ver negros onde ele não esperava ver.

Sou historiadora e literata pela Unicamp. Criei esse blog pela necessidade de falar sobre negritude e feminismo duas coisas que para mim significam identidade. Mas como todas pessoas são diversas, você pode encontrar outros textos aqui sobre literatura, cinema, seriados! ;)

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