Oi, gente! Como eu falei no último texto, hoje eu vou tentar abordar um tema um pouco mais controverso que cada corrente feminista dirá uma coisa ou defenderá um ponto de vista. É engraçado como quando a gente começa a seguir mais diretamente alguma coisa as discussões sobre posicionamento começam a pular sobre você!

Vou contar uma historinha… Teve uma vez que eu estava na faculdade, na aula da pós-graduação (o que pra mim acabou sendo, de certa forma mais assustador, afinal você imagina que aquele seja um espaço de pessoas muito bem instruídas e que saberiam identificar a importância de certas coisas, né?), e estávamos discutindo em aula sobre um livro do século XIX. A aula estava bem descontraída e eu e meu colega éramos orientandos do professor – então digamos que sabíamos como podíamos reagir ali. A certo momento eu comentei que era interessante observar a moral da época diante de uma personagem mulher que havia sido enganada pelo vilão da história para que ela se casasse com ele. Porém, como ela não resistiu ao casamento (mesmo amando outro homem que considerava estar morto) ela é condenada a ser infeliz. Aí veio esse meu colega e disse: “Como assim? Ela foi a maior biscate!”. E eu fiquei: “?? Como assim? Ela não sabia que o cara era o vilão!”.

A gente não prolongou a discussão, no entanto. Isso nem mesmo me importava, já que não mudaria aquela primeira exclamação dele que para mim já dizia muita coisa. Ele estava colocando o preconceito moral dele próprio sobre a interpretação do romance. O que para mim, com certeza, é uma forma errada de olhar para a história, só que não estávamos escrevendo nenhum artigo científico. Contudo, uma opinião dita num momento de liberdade expressiva pode ser muito mais sincera do que quando algo limita seu pensamento. Veja bem, eu tentei explicar a minha colocação, ele negou. Eu poderia ficar estressada e começar a acusá-lo em direção a sua pessoa – o que seria mudar o rumo da conversa, afinal estávamos falando sobre um livro, lembram? – o que apenas o colocaria na defensiva e com certeza não iria modificar suas ideias. Então, apesar de incomodada com a perspectiva dele, eu me calei.

A meu ver não cabia na situação mudar a discussão para a forma como ele interpretava as questões de gênero. E só de escrever isso já fico imaginado que colegas feministas discordariam comigo. Tem gente que acharia que isso é ser conivente; para mim é não me exceder em espaços que não são propícios para isso. Além disso, tem muito a ver com personalidade. Não gosto de criar discussões; as poucas vezes que fiz isso na vida me perseguem como um fantasma de um passado remoto até hoje! (Na minha cabeça, sabe? Quando você remói que não devia ter feito tal e tal coisa).

Por fim, quando saímos da sala ele comentou: “Ainda bem que você não é uma daquelas feministas malucas que iam querer me matar se ouvissem isso”. (Em outra ocasião eu coloquei sim a minha opinião numa conversa com ele, afinal, um “bom machista” sempre dá furos como esse em público, mas não é disso que eu vou falar agora).

Levanto nisso pelo menos dois pontos: o primeiro é a importância da personalidade. O que faz uma pessoa se manifestar de uma maneira ou de outra tem muito mais a ver com o modo como ela acha aceitável se colocar publicamente do que qualquer outra coisa. O que mais me dá medo em algumas pessoas são suas personalidades, a forma como elas se colocam no mundo, e não suas defesas políticas e sociais. Às vezes nós podemos nos dar super bem com alguém em suas ideias políticas e sociais, mas as diferenças de personalidade inviabilizam uma boa convivência (e até mesmo a amizade). Cada um decide como vai lidar com a interação entre suas defesas pessoais e sua exposição pública, ainda mais em tempos de internet que é tão fácil dizer qualquer coisa e da forma como quisermos.

Não é o feminismo que tende a ser exagerado, são as pessoas que ganham maior visibilidade que em geral são mais inflamadas na hora de se posicionar. Na verdade, a gente costuma lembrar mais de quem se coloca de forma contundente sobre um determinado assunto; só que por outro lado, eu acho que isso não faz as pessoas mudarem de opinião, apenas reafirma a opinião daquelas que já concordavam com você. Isso leva a alguma coisa? Você acaba mantendo a discussão num mundinho que todo mundo previamente já concorda entre si. Bom, é o que eu acho hoje, amanhã posso mudar de ideia!

Outro ponto, que tem a ver com o primeiro, é essa ideia disseminada de que feministas são malucas. Insisto que essa generalização é histórica, desde os primórdios do feminismo tinha algum grupo querendo falar mal dele. No entanto, a partir do momento que entendemos que feminismo são pessoas e pessoas são em si diversas, concluímos que não devemos acusar a causa, mas devemos apenas ter consciência que somos nós que decidimos como nos posicionamos.

Hoje o feminismo é um movimento que busca falar sobre igualdade e liberdade. (Eu vi na internet que tem gente que chama de feminismo umas coisas muito doidas por aí – essas nomenclaturas não fazem parte do feminismo, por isso não vou citá-las). Pensemos em igualdade e liberdade: se a pessoa é homossexual, não cabe aqueles que não são dizer com quem ela pode ou não pode se relacionar; se uma mulher é trans (isso significa, para quem não entende, uma pessoa que nasceu biologicamente como homem mas se identifica como mulher) cabe a ela se vestir como lhe faz bem e como ela se identifica diante de um espelho. Ela não merece ser espancada na rua por conta disso! (Na boa, tenho medo de qualquer pessoa que ache que violência pode ser resposta para atitudes alheias).

O meu feminismo é aquele da Emma Watson e da Chimamanda Adiche que diz: “Todos devemos ser feministas”. Não vou entrar aqui no mérito do feminismo que diz “Mulheres são feministas, homens apenas podem apoiar o feminismo”. Isso me soa completamente sem cabimento. Se feminismo é um conceito de igualdade, porque homem não pode ser feminista? Na minha opinião quem diz uma coisa dessas está confundindo as coisas. Um homem pode não saber o que é ser mulher; convenhamos ele não sabe o que é ficar menstruada, nem perder a virgindade com uma barreira que precisa ser transposta (!); não sabe o que ter um bebê na sua barriga, nem o que é o medo de estar grávida. O inverso também é verdadeiro, não sabemos o que ser homem. Existem sim diferenças intrínsecas a cada gênero. Essas diferenças, no entanto, não deveriam se refletir no nosso salário (em funções que são as mesmas), no cuidado com os filhos, na organização da casa.

Espero ter dito algo de útil! E desculpem, atrasei uma semana o post! Semana passada foi conturbada!

Beijos a todxs!

Sou historiadora e literata pela Unicamp. Criei esse blog pela necessidade de falar sobre negritude e feminismo duas coisas que para mim significam identidade. Mas como todas pessoas são diversas, você pode encontrar outros textos aqui sobre literatura, cinema, seriados! ;)

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