No século XVIII um grupo de tipógrafos se reuniu numa noite sem trabalho para beber e se divertir. A certo momento um deles resolveu contar uma história, segundo ele muito engraçada, que havia ocorrido alguns anos antes na tipografia de seu antigo patrão. A taberna lotada se reúne ao redor da mesa com seus copos na mão e Nicolas conta como em 1730 ele e seus amigos aprendizes de tipógrafos haviam enforcado todos os gatos de Paris! Eles inclusive degolaram a Fifi, a gatinha de estimação da patroa, e para ela fizeram questão de montar um cenário de julgamento antes de estraçalharem a bichinha – hoje em dia não é preciso descrever, com um pouco de imaginação televisiva já conseguimos montar a cena grotesca. Aquele havia sido o grande massacre de gatos.

A sagaz pergunta que Robert Darton fez ao analisar esse documento histórico talvez seja a mesma que está se passando pela cabeça de muitos: como aquelas pessoas estavam achando a descrição detalhada de Nicolas engraçada? Como entender aquele riso compartilhado?

Os bons textos são usados para muita coisa e por isso trouxe esse aqui para pensarmos sobre a nossa própria participação hoje em outros risos que também devemos nos perguntar como é possível que sejam compartilhados por tantas pessoas. Uma sociedade inteira, por exemplo.

O que estava por trás do grande massacre de gatos era a estrutura social de um grupo que naquele momento começava a perder espaço e prestígio no trabalho com os livros. Era muito mais do que matar gatos, tinha a ver com ritos e crenças profundamente enraizadas na sociedade francesa da época. No limite eram mudanças que influenciavam as formas de vida daquele grupo e que tinha no riso e no massacre de gatos (principalmente dos patrões) uma válvula de escape.

Mas o verdadeiro aprendizado por trás da pergunta sagaz de Darton é a consciência de ver como funciona a mudança de sensibilidade no tempo e como ela tem a ver com uma série de fatores sociais compartilhados por uma sociedade. A legitimidade de uma piada e de um riso compartilhado é que ele cria uma atmosfera ambígua na qual tende-se a acreditar que não há consequência ou, ainda, muitas vezes a graça está exatamente em poder fugir das consequências.

Hoje quem ri de piada racista está trabalhando também com uma série de problemas sociais que são compartilhados na sociedade brasileira. Esperar que haja uma punição contra William Waack ou qualquer outro que manifeste o seu preconceito é apenas o exercício diário de não aceitarmos que a comunidade negra seja válvula de escape para o ódio criado pela própria história desse país contra mais de 50% de seus integrantes. A piada racista é uma forma de transgressão da lei, ainda que inconsciente, compartilhada por ricos e pobres, por pessoas mais estudas e menos estudadas, que faz parte da nossa estrutura cultural e esconde-se atrás do codinome “brincadeira”.
Brigar para que esse riso acabe é ter consciência que transformações são necessárias e que por mais que “todo mundo” tenha feito algo em algum momento não faz disso o ideal a ser perpetuado por todo o resto de nossa história. Mudanças são necessárias. Parar para analisar críticas também. Não chame de frescura um movimento apenas porque você estava acostumado a ver as coisas funcionando de outro modo.

Quem sabe assim, um dia, um historiador precise se perguntar por que um grupo de pessoas reunido numa mesa de bar ria de uma piada que atacava a integridade de uma pessoa negra.

Sou historiadora e literata pela Unicamp. Criei esse blog pela necessidade de falar sobre negritude e feminismo duas coisas que para mim significam identidade. Mas como todas pessoas são diversas, você pode encontrar outros textos aqui sobre literatura, cinema, seriados! ;)

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