Feminismo, em sua definição, é a defesa da igualdade entre homens e mulheres. Um conceito bem simples, como podemos perceber, mas que para tomar forma precisou se estruturar através de movimentos sociais. Assim, feminismo é um movimento político; se organizou por meio da conscientização de mulheres e homens quanto à dominação que sofriam as mulheres e que – de certa forma – sempre existiu na sociedade humana, mas se intensificou durante o século XIX e XX.

A questão do espaço da mulher como a compreendemos hoje começou a se delinear no século XIX (o século dos livros das mocinhas da Jane Austen), quando a ideia de família vai ganhando o sentido que se firmou no século XX e que deu a mulher o lugar por excelência de dona de casa. Ou seja, a mulher como dona de casa e mãe cuidadosa acima de todas as outras coisas também foi construída socialmente. Não estou dizendo que não existiam mães amorosas em outros séculos, veja bem, mas a ideia massificada de que todas as mulheres deveriam ser mães amorosas e todas as mulheres nasceram com um desejo intrínseco de serem mães, surgiu no século XIX e se firmou como verdade absoluta no século XX.

É interessante notar que tanto a mulher como perfeita dona de casa, quanto o desejo feminino por um maior espaço público e político são demandas colocadas para a sociedade ao mesmo tempo, só que de maneira muito mais intensa para a primeira. Assim, homens e mulheres escreviam textos e mais textos em jornais do século XIX defendendo que as mulheres deveriam estudar para educar os seus filhos e aprenderem a lidar com a casa, pois esse perfil de mulher doméstica ainda não existia como lugar comum, sabe?

Considero que pensar nessas raízes históricas da formação dessa mulher de família, como dona do lar é uma boa forma de desnaturalizarmos o modo como vivemos hoje e consequentemente a imagem de que “sempre foi assim”. E não foi. A mulher, dona do lar, é uma construção política tanto quanto a mulher livre e profissionalizada. A diferença principal é que em um primeiro momento, até os anos de 1950, a versão “mulher-dona-de-casa” estava ganhando disparada da versão “mulher-espaço-público-profissional”. Isso acontece porque, é claro, existia um esforço muito maior dos meios de comunicação, e mesmo em romances, mostrando essa mulher caseira. Assim, durante décadas, nós passamos a acreditar que, sim, “esse era o espaço da mulher”; “sim, nós temos por obrigação cuidar dos filhos e da casa. Tudo o mais é uma obrigação extra, que se formos fazer, estamos adicionando àquela obrigação caseira – que é de fato a nossa”. Vocês conseguem entender que isso foi construído? Foram anos e mais anos de jornais, revistas, manuais femininos e romances repetindo isso na nossa cabeça até que se tornasse verdade.

Enquanto uma força descomunalmente grande (pense em quantas revistas, jornais e livros) defendia a mulher caseira, outra força tentava gritar que não. “Não nascemos especialmente para sermos mães e donas de casa, apenas nascemos, e queremos outros espaços também. ” Essa força, no entanto, era bem fraquinha no começo e muita gente ria dela. Muita gente mesmo. Essa gente contrária começou a dizer que feminismo era coisa de mulher louca e que feminismo não era natural. A mãe de família que era. A mãe de família “tinha nascido com a mulher”.

Entendem agora o impacto que a frase de Simone de Beauvoir tem? “Não se nasce mulher, torna-se” – ela estava dizendo isso para essa briga toda que ocorria ao redor dela quando se falava no espaço feminino. O triste é que ainda hoje, mais de 60 anos depois, isso ainda não foi compreendido.

É por isso também que as mulheres de 1940/1950 lutaram para mostrar que poderiam fazer as duas coisas – cuidar da casa e trabalhar. (Ah, é importante dizer que essas demandas são das mulheres da classe média – a mulher pobre sempre trabalhou, mas também era afetada pela falta de igualdade ao receber menores salários, correr o risco de abuso sexual, entre outras coisas que não estou discutindo nesse texto). Quando as primeiras mulheres se formaram, no Brasil, no fim do século XIX (entre 1890/1900 algumas mulheres conseguiram se formar em medicina e advocacia!), elas realmente não sabiam como administrar o trabalho da casa com empregos que exigiam maior capacidade intelectual. Afinal, como ser médica e ter filhos? Como advogar e administrar a cozinha?

Ainda não passava pela cabeça delas que o serviço doméstico pudesse ser divido com o marido, era realmente inconcebível imaginar o homem fazendo qualquer serviço da casa. Afinal, uma coisa seria uma mulher pobre lavar roupa, fazer trabalhos manuais em fábricas, outra era uma mulher da classe média se formar em uma faculdade e exercer uma profissão. No carnaval de 1891, por exemplo, escolas de samba saíram com carros alegóricos ironizando o fato de que algumas mulheres queriam se tornar homens. E o que elas esperavam? Que homens se tornassem mulheres?

Dá para perceber a dificuldade que a sociedade tinha em se compreender igualitariamente. O feminismo já estava ali, nessas mulheres, tentando dizer: “Peraí, nós também queremos ter o direito que entrar no mercado de trabalho; queremos ter o direito de votar”. Só que forças contrárias a essas mudanças sempre agiram e normalmente com poder muito maior de disseminação de suas ideias. Eu vi em algum lugar dizendo que “feminismo não existe, o que existe é movimento social” e que isso significa que as feministas não fazem nada, só meio que roubam a função alheia. Bem, o movimento social que luta pela igualdade de direitos entre os sexos chama-se feminismo. É uma questão semântica. Vai discutir com o dicionário? Quem apoia o “movimento social que luta pela igualdade de direitos entre homens e mulheres” está apoiando o feminismo.

“Ah, mas pera lá, existe um feminismo que diz que homem não é feminista… e que mulher…”. Sim, eu sei, a partir da terceira onda feminista o movimento começou a se ramificar em diversas correntes… Afinal, como eu disse, feminismo é política. E, aí sim, cada um pode dizer que defende essa corrente e não aquela, mas isso é assunto para o próximo post!

PS: O feminismo hoje abrange inúmeras questões e esse texto aborda apenas uma delas, de certa forma a mais fácil. Falar de feminismo hoje levanta questões de identidade de gênero, cor e classe social.

Sou historiadora e literata pela Unicamp. Criei esse blog pela necessidade de falar sobre negritude e feminismo duas coisas que para mim significam identidade. Mas como todas pessoas são diversas, você pode encontrar outros textos aqui sobre literatura, cinema, seriados! ;)

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