Representatividade é uma coisa muito louca. A gente nem sempre presta atenção em como ela é importante até começarmos a perceber nas entrelinhas da nossa vida como essa falta sempre nos atingiu de alguma forma. Representatividade é você conseguir se imaginar presente em vários lugares da sociedade – inclusive filmes, novelas e livros – por ver que ali existem outras pessoas parecidas com você. No meu caso a cor de pele faz toda diferença. Eu tenho a pele cor de oliva. Você já ouviu falar nesse termo? Pense na Moana e, pronto!, saberá de que cor estou falando.

Algum tempo atrás estava assistindo um vídeo no Youtube no qual duas blogueiras conversavam sobre várias coisas até que uma delas comentou que sua princesa preferida era a Bela:

“Eu gostava muito de ler e a Bela amava ler… Mas acho que era principalmente porque a Bela era morena [falava do cabelo] assim como eu” – e a outra moça concordou que devia ser esse o motivo para ela também.

Fiquei pensando sobre isso porque eu simplesmente amo ler. Para chamar minha atenção com facilidade basta falar de livros, mas eu não conseguia me lembrar de ter criado nenhum vínculo muito especial com a Bela. Já a minha irmã, que é branca de cabelos castanhos escuros e estava vendo o vídeo comigo, concordou plenamente. Foi então que puxando pela minha memória infantil eu percebi que duas personagens que eu me lembrava muito bem era a Jasmine – do Aladim – e a Esmeralda – do Corcunda. E não era algo pela história. Eram as personagens. Tanto a Jasmine quanto a Esmeralda tinham a pele cor de oliva e os cabelos volumosos – assim como eu. Mesmo inconscientemente ser representada naquelas personagens era importante para mim. Eu me sentia parecida com elas, mesmo não amando os filmes nos quais elas estavam. Nem sempre conseguimos perceber a diferença que essas pequenas coisas fazem.

Com Moana a Disney criou uma personagem que representa muito para as meninas que não são brancas em todos os lugares do mundo – afinal a Disney tem uma enorme distribuição de seus filmes. Moana é linda, é forte, de pele caramelo e cabelos cacheados! Eu amei os cabelos cacheados dela. E posso dizer que pela primeira vez, com Moana, eu me sinto realmente representada.

Não é só a cor da pele que faz dela uma personagem incrível. Moana é batalhadora e não precisa ser salva por um príncipe. Na verdade, não é uma história de princesa, é uma história de luta e conquista pelos seus próprios méritos. Eu nem consigo entender por que tanto alarde para o fato de Moana ser protagonista e não ser princesa. Como se todas animações boas que nós assistimos por aí se resumissem a histórias de princesas… Se o protagonista fosse homem ninguém ia ficar questionando o fato dele ser “só” o filho do chefe e não um príncipe – Como treinar o seu dragão é um caso desses.

Em seu caminho Moana faz um amigo que mesmo sendo um semideus não é uma pessoa super-determinada e confiante. Os dois precisam aprender a se superar e no final trabalham juntos para conquistarem o que desejam. O mais interessante, no entanto, é que a própria superação está ali para mostrar que o bem e o mal pode ser construído por nós mesmos. Não existe nada essencialmente ruim para ser destruído.

Eu gostei muito de Moana. Achei a história divertida, animada e não fez falta nenhuma ter um príncipe para mudar o rumo dela. Na verdade, eu adoro histórias de princesas. Adoro mesmo. Só não acho que todas as histórias da nossa vida devam se resumir a elas.

Sou historiadora e literata pela Unicamp. Criei esse blog pela necessidade de falar sobre negritude e feminismo duas coisas que para mim significam identidade. Mas como todas pessoas são diversas, você pode encontrar outros textos aqui sobre literatura, cinema, seriados! ;)

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *