Você já parou para pensar em como e quanto o feminismo influenciou a sua vida? Hoje é o dia internacional da mulher por isso não dava para passar por essa data sem falar de alguma forma desse tema. Eu sempre me interessei muito diretamente por assuntos feministas, tanto contemporaneamente (como o feminismo ou a falta dele atinge nossas vidas hoje em dia) quanto historicamente (como se formou e se organizou o feminismo).

Ironicamente, por conta de este ser um assunto muito importante para mim, ele acaba se tornando um tema difícil, pois para podermos falar de qualquer coisa é preciso fazer um recorte e quando vejo estou pensando em n assuntos diferentes dentro do mesmo tema! Por isso resolvi fazer em março um especial assuntos feministas – dando minha opinião sobre questões diversas dentro do tema. Se você aí tem algum tópico que gostaria de saber mais, me conta nos comentários! Se eu souber falar a respeito faço um texto para ele!

Pessoalmente, sempre me senti envolvida por questões feministas. Como qualquer assunto na vida têm pessoas que desenvolvem maior ou menor interesse por ele, o que não significa que as outras não gostem ou não se preocupem com o tema. Só que para mim, pensar em feminismo não podia ser um simples adendo na minha vida, eu queria estudá-lo e entendê-lo, por isso na graduação era o assunto que sempre atraía a minha atenção. É engraçado porque na área acadêmica existe uma ideia de que, como outras áreas, você tem que escolher o que fazer por justificativas maiores do que sua simples vontade. Por exemplo, eu estudo história e literatura. Então, se existe um jornal antigo x ou um escritor morto y com assuntos relevantes e que ainda não foram estudados muito provavelmente o seu orientador dirá para você estudar esse jornal ou esse escritor porque “vale um bom tema de pesquisa”. Isso para mim não funciona. Pesquisa na minha vida precisa ser de algo que me angustie; preciso sentir que as horas e horas de leituras e fins-de-semana que perderei diante de milhares de livros acadêmicos e documentos antigos signifiquem algo para minha vida além de um diploma. Afinal, tô fazendo isso para quê? Ter conhecimento de um treco que nem quero ter conhecimento? Aviso aos navegantes que esse é o jeito certo para você perder o emprego ou o orientador! Mas tem funcionado para mim… Cada um assume os riscos do que quer para sua vida, né?!

É engraçado porque depois que eu consegui de fato estudar assuntos feministas parece que o tema entrou com ainda mais força na minha vida e não apenas na carreira acadêmica. Isso para mim é muito bom, pois, por mais que seja difícil lidar com a interação entre o conhecimento e a possibilidade de fazê-lo prático na sua vida, eu prefiro saber que a culpa de certas coisas não é minha e que eu não estou errada em determinadas ações ou pensamentos. Eu não estou errada quando não vejo graça quando alguém diz que lugar de mulher é na cozinha, por exemplo. Ou que é sua obrigação, mulher, tirar uma mancha da camisa do seu marido. Ou que toda mulher quer necessariamente casar. E todo homem quer fugir do casamento.

A gente vive em uma sociedade que é cheia de pequenos detalhes que quase o tempo todo se debatem dentro de temas feministas – que basicamente é o direto a igualdade entre os sexos. O planeta é mais ou menos 50% composto por homens e os outros 50% por mulheres, só que essa delimitação fácil do sexo biológico acaba no parto, porque logo depois cada um de nós é posto em sociedade e começa a agregar, de suas culturas, o modo de olhar o mundo. O modo de se reconhecer e reconhecer os outros. Por isso a frase de Simone de Beauvoir ficou tão famosa: Não se nasce mulher, torna-se. Desde pequenininha alguém te disse que essa ou aquela é uma atitude de menina. “Não senta de perna aberta, menina, coisa feia”. Mas os homens sentam de perna aberta, não é? Bem aberta, por sinal. Existe um estudo que diz que até mesmo esse mínimo ato de sentar (de perna aberta ou bem educadamente de um modo feminino) tem implicações no psicológico feminino e na forma como mulheres conseguirão se expressar em público e em situações de comando. A propósito, vocês já repararam com essas palavras, e os conceitos implícitos por trás delas (“liderança”, “posição para comandar”), tem tons e posições corporais que automaticamente remetem a uma “natureza” masculina?

Isso não significa que não existam diferenças biológicas quando uma pessoa se reconhece mulher. Claro que existem, a humanidade é uma combinação complexa de fatores biológicos e sociais. Como disse o Dr. Drauzio Varella num vídeo que eu assisti, o cérebro humano é a máquina mais complexa que existe, podendo ser comparada com a complexidade do universo. Ambos, cérebro e universo, estão muito longe de serem compreendidos inteiramente pelo homem. Por isso, acho que posso dizer, não tem nada de simples em entender atitudes sociais. A graça de cada um de nós termos uma máquina tão complexa dentro de nós mesmos é tentarmos decifrá-la e de algum modo usá-la mais proveitosamente. Os estudos culturais e sociais – e coloco aqui tudo o que é produzido pelo homem – são parte desse esforço.

Por fim, acho que o mais importante é que o feminismo me permitiu ter consciência de determinadas estruturações da sociedade e dentro dessa consciência a possibilidade de escolher como estou no mundo e nos relacionamentos que ele me proporciona. Todo relacionamento é uma forma de olharmos para nós mesmos. Eu sou mulher e sou feminista. Olho o mundo com a consciência dessas duas coisas. Às vezes dói, pois descobrimos limitações que estão acima de nossos esforços pessoais que possibilitem superá-las. Mas também fortifica, pois você se torna mais responsável pelo o que quer ser. A responsabilidade esclarecida da sua função no espaço em que estiver. Toda mulher que se reconhece feminista torna-se mulher novamente. Na inteireza do que podemos, queremos e buscamos ser.

Sou historiadora e literata pela Unicamp. Criei esse blog pela necessidade de falar sobre negritude e feminismo duas coisas que para mim significam identidade. Mas como todas pessoas são diversas, você pode encontrar outros textos aqui sobre literatura, cinema, seriados! ;)

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *