Eu me lembro de algumas vezes, quando tinha 15 anos, ficar sentada durante o intervalo com a minha amiga brincando de unir os nomes meu e do meu namorado (na época) para ver como ficariam os sobrenomes. Parecia meio natural que quando me casasse (e ela também) eu teria um novo sobrenome e às vezes nós brincávamos que: “credo, precisamos encontrar um cara com sobrenome decente, porque, né?, imagina a lástima de ter que colocar um sobrenome e não gostar.” Você nem nasceu com ele!

Aí eu cresci e fui aprendendo umas coisinhas… E a mais importante delas foi começar a questionar algumas “verdades” que me pareciam bem concretas quando eu era mais nova, mas que com o tempo eu descobri que não é porque muita gente fala ou brinca com isso significa que precisa ser assim. Relacionamentos entre homens e mulheres é algo que envolve muitas dessas “verdades universais” de como se agir e reagir em determinado momento da vida em comum dos namorados. Uma delas é essa: você vai casar e com certeza vai adicionar o sobrenome do seu noivo. Aí eu me pergunto: por quê? Quer dizer, se você curtir muito o sobrenome e achar legal você pode adicionar, da mesma forma que se estiver contente com o seu próprio nome está ok. Não é isso que vai significar algo de bom ou profundo no relacionamento de vocês.

Sim, confesso que quando eu era criança achava super diferente pais de amigos meus que não tinham o mesmo sobrenome, parecia que algo havia falhado no meu do caminho! É normal a gente se acostumar com aquilo que convivemos; mas temos que aprender a não fazer disso a única verdade que conhecemos. Parar para se perguntar por que determinada coisa está acontecendo de determinada maneira é um ótimo exercício de reflexão. Adotar o nome do marido era comum numa época em que a mulher era totalmente dependente do homem e sim tinha um caráter de poder.

Ainda no grupo de coisas que sempre ouvimos por aí quando temos um relacionamento sério é essa mania de se dizer que é sempre a mulher que vai querer casar. Basta algum conhecido tocar no assunto por qualquer motivo que aparece algum piadista: “É, cuidado que logo ela passa as algemas em você!”. Aquela típica figurinha do GAME-OVER do matrimônio. Eu não consigo entender como a gente ainda vive essa piada.

O problema é que piadas são formas de normatizar ações sociais; coisas que a gente acredita “serem assim mesmo” no mundo em que vivemos. Quando a gente brinca que “o cara” nunca quer um relacionamento e a mulher sempre está desesperada por um a gente delimita espaços que na prática nós mesmas não queremos viver – mas consideramos normal. Mulheres não necessitam de relacionamentos para serem felizes. Homens não precisam cultivar a solteirice para viver no paraíso. Um cara pode querer tanto ou mais que uma mulher se casar e ter filhos. E isso é ótimo! As pessoas precisam aprender a cultivar a felicidade que sente dentro de si mesmas e não uma imagem do que parece universalmente bom.

E claro não pode ficar de fora aquela ideia de que mulheres em relacionamento sério não podem (ou não querem) fazer coisas sozinhas e com as amigas. O outro lado da moeda é você deixar o seu namorado sair com os amigos sem achar que “uma periguete vai voar no pescoço dele assim que cruzar a porta de um bar”. Eu considero a frase: “o que um não quer dois não faz” autoexplicativa nesses momentos. Se você realmente confia no seu namorado não vai precisar fazer dele sua única companhia. A gente não tem como dominar a vontade de ninguém. Você não é dona do seu namorado nem seu namorado é seu dono. Tudo em excesso faz mal, inclusive amor – que em alguns casos se torna possessão. Quando você acredita que é “errado” a pessoa poder sair sozinha você só está criando espaço para desconfianças e discussões. Por isso temos que ter cuidado com essas “verdades” que escutamos por aí… Às vezes corre o risco de você acreditar.

Sou historiadora e literata pela Unicamp. Criei esse blog pela necessidade de falar sobre negritude e feminismo duas coisas que para mim significam identidade. Mas como todas pessoas são diversas, você pode encontrar outros textos aqui sobre literatura, cinema, seriados! ;)

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *